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António Fortuna

SOBRE LAÇOS DE SÉPIA II - José Manuel Tarroso Gomes - em 23 de dezembro de 2019

LAÇOS DE SÉPIA é o título do recente romance do meu primo António Fortuna. Chegou recentemente às minhas mãos por intermédio da Ana Paula sua mulher e minha prima de sangue.

Mal o folheei percebi que tinha de ser lido de um só fôlego. Foi o que fiz. Motivação não faltava. Em primeiro lugar porque conhecia a excelente qualidade da obra publicada do António, poesia, contos e um ensaio, distribuída por seis publicações. Em segundo lugar porque tendo o António nascido em Luanda me iria seguramente transportar para o universo onírico de África.

Eu explico. Fisicamente só visitei o continente africano na sua versão mediterrânea. Especificando estive por duas vezes na Tunísia. O que aprendi sobre África abaixo do equador resulta da literatura e do contacto com amigos angolanos.

Em janeiro de 1960 na cidade então denominada Sá da Bandeira, atual Lubango, os escritores Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme criaram as PUBLICAÇÕES IMBONDEIRO com o propósito de editar autores angolanos e de reunir todos os contistas contemporâneos de expressão portuguesa. O meu pai, sempre atento, assinou a coleção que li e reli com entusiasmo. A literatura angolana foi uma enorme revelação da minha adolescência. Até hoje. A esta distância temporal poderei arriscar esta reflexão: Foi a cegueira da ditadura salazarista que acelerou a existência duma brilhante comunidade literária angolana. Nos primeiros anos da ditadura muitos dos que se opunham à supressão das liberdades eram julgados e deportados para Angola. Militares e civis que manifestassem consciência cívica e política eram afastados para longe de Portugal por largos anos. Os intelectuais que saíam daqui com ligações às correntes literárias do realismo em contacto com a surpreendente vivência africana, se voltavam e quando voltavam, eram portadores do vírus do realismo animista.

Foi de algum modo o que aconteceu à vida do personagem FRANCISCO SEIXAS ao ver interrompida a sua vida de militar com a deportação para Angola, como se constata da leitura de LAÇOS DE SÉPIA. E toda a história se desenvolve a partir da descoberta duma estranha fotografia, guardada durante anos, numa caixa de sapatos. Foi a personagem MATILDE que a descobriu ao ver-se retratada menina a dar as mãos ao pai, dum lado e, do outro, a uma mão sem corpo. Soube mais tarde duas coisas. A foto foi tirada num dia 13 de fevereiro. Foi nesse dia, em 1932, que Malanje passou a ser cidade e a partir de 1933 sucedem-se as comemorações anuais. Através do comércio de algodão FRANCISCO descobre a personagem BRANCA, aos espantados olhos dele uma deusa africana, que virá a ser a mãe de MATILDE. E, percebe-se, o amor por BRANCA é tão intenso que na futura separação jamais conseguirá FRANCISCO olhar para a imagem de BRANCA. Daí a mutilação da fotografia.

Foi nessa Malanje que em 4 de janeiro de 1961 se iniciou a guerra colonial, com um levantamento popular de milhares de trabalhadores dos campos de algodão da empresa Luso-Belga Cotonang. Ficou na história com a designação de Revolta da Baixa do Cassanje.

A apresentação de LAÇOS DE SÉPIA foi agendada para o dia 30 de outubro passado, pelas 21H30, no Centro Cultural Regional de Vila Real.

No dia aprazado, sala cheia, mas, não havia livro! Constou que teria havido uma falha da editora. Não acredito. Foi a Mãe África que não descansa nem descuida os que foram tocados pelo seu vírus.

Na sessão de apresentação, bafejada pelo mais puro do realismo animista, para ser um enorme sucesso bastava o ANTÓNIO e uma caixa de sapatos.

E assim foi.