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António Fortuna

Frescos da Memória

Frescos da Memória

2009

CONFORME FIZERES; ASSIM ACHARÁS

(...) As últimas afinações de matérias eram feitas diariamente. Percorríamos Portugal de lés-a-lés

De comboio partíamos da linha do Sabor e íamos até à linha do Sul; ou então, de barco, navegávamos do Guadiana ao rio Minho. Escalávamos às mais altas serras do país e ríamos do Espinhaço de Cão. Quando o calor apertava, tomávamos uma banhoca na ria de Aveiro e em Tróia, na Península de Setúbal.

Finalmente, exaustos, descontraíamos e descansávamos na Ponta de Sagres e imaginávamo-nos ao lado de D. Henrique a ver partir a armada.

A inquietação e a ânsia de ver chegar o dia de prestar provas aumentava. Teríamos que nos deslocar à vila de Mogadouro. Eu esforçava-me por sentir o mesmo que os outros colegas, mas acho que não conseguia. Alguns deles nunca, ou quase nunca, tinham saído da aldeia. Só conheciam a vila por irem uma ou outra vez à feira, ou apenas por ouvirem descrevê-la.

No dia do exame, todos fomos, como era habitual, com o fatinho de ver a Deus e de marrafinha bem-feita.

Antes do exame, para esquecermos os nervos, os senhores professores levaram-nos ao largo onde se encontrava a estátua do grande escritor trasmontano Trindade Coelho, mostrando-nos também a casa onde nasceu. Com esta visita tentaram incentivar-nos à leitura dos seus livros, em particular da sua obra principal, Os meus Amores.

Realizadas as provas, verificámos que tínhamos cumprido a nossa missão. Estava, pelo menos para mim, aberta a passagem para a continuação dos estudos.

Voltei a Vila Real. Já não se ouve o comboio da rapaziada, nem se vêem os automobilistas nervosos porque o comboio já não apita na passagem de nível da estação. (...)




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