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António Fortuna

Laços de Sépia

Laços de Sépia

2019

LAÇOS DE SÉPIA

(…) A fotografia descansa nas mãos de Matilde. Seguram-na dedos ternos, seguros, que só o saber do tempo consegue tricotar em nós. Tal qual Penélope que, em duas décadas, conseguiu criar toda a eternidade. Eternidade e esperança, uma e única ideia conjugada em duas palavras apenas. Duas faces da mesma moeda cunhada pela mão volátil do tempo. Sim, uma única mão tem o tempo, pois o tempo se não desfaz. Sim, uma mão para que a outra a não desdiga. Duas mãos têm os homens, sendo, por isso, contraditórios: o que uma mão faz, a outra desfaz. O tempo flui, por obra de uma mão única, construindo a eternidade que se alcança, percorrendo os degraus da esperança.

Na fotografia, uma mão falta. Estranha fotografia aquela! Eivada de ambiguidade e de tortura, o tempo tornou-a inocente e terna. Ternura da mão que falta, volatilizando-se no tempo da mentira e da verdade. Estas unidas completam-se num corpo mítico de real e irreal. Esotérico não, pois em parte alguma se falou em fantasia.

Conjuguemos verdade com real e irreal com mentira, pois disso se trata. Barreiras permeáveis, formando um corpus sustentado na ambiguidade do real. A fotografia, alguém a tirou. Chamemos-lhe sujeito por lhe não sabermos o nome. O artista é o sujeito. E o artista do preto e branco tira o retrato, pois retrata objetos, pessoas e coisas. As pessoas, neste caso, são Matilde e o pai. Assim lhe contara Francisco, o progenitor. Matilde e Francisco de mão dada. A menina do retrato tem a outra mão dada a alguém cortado da sua vida. Fotografia incompleta, pois. Fotografia mutilada, faltando-lhe um corpo que segure uma das mãos da menina. Fotografia incompleta. Incompleto o quadro que deveria, ao momento, ser perfeito, avaliando os sorrisos de Matilde e de Francisco. E incompleto, o quadro não conta toda a verdade.

Uma única verdade temos certa. O artista compôs o retrato na sua máquina à Ia minuta. Perfilou o objeto a retratar, colocou a película quadrangular na máquina, enfiou a cabeça no saco preto e disparou, aproveitando a luz do sol tropical. Da única verdade, a que temos como certa, é que alguém mutilou a fotografia a golpe de tesoura.

É esta a fotografia. (…)




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