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António Fortuna

O Senhor da Terra Quente e Outros Contos

O Senhor da Terra Quente e Outros Contos

2006

O TI CAPELAS

(…) Decidiu dar o salto. Conhecia a técnica de atravessar o rio. A corda ainda lá estava a unir as margens dos dois países. Procuraria mais tarde fazer justiça, desagravando a memória dos seus filhos. Haveria de pôr os guardas a cantar a verdade. Ele que conhecia tão bem os filhos da puta.

Ti Capelas caiu num inferno semelhante ao que lhe ia na alma.

Em Espanha, os canhões e as armas disparavam em uníssono. Morriam humanos e matavam-se irmãos. Espanha auto-destruía-se e mutilava-se. Feriam-se vontades e ideologias. Soldados avançavam atrás dos canhões, espalhando a morte. A fome agigantava-se, deglutindo, com prazer, vidas inocentes.

As tropas de Franco, implacáveis, recrutavam todos os braços úteis. Capelas gritava:

— Io soi português. Nada tengo a ber com Ia guerra.

— Cala-te hijo di puta, dispararás por nosotros, o morirás.

E disparou, incendiou, fugiu, passou fome. Encontrou e fez amizade com Manolo, espanhol de nascença, mas a viver em Portugal desde bebé. Tinha sido entregue às tropas de Franco pelos homens de Salazar.

Matavam ou morriam numa guerra da qual nem sabiam a origem.

Atacavam cidades e aldeias. Igrejas e escolas. Avançavam a passos largos, dando a vitória ao generalíssimo. (…)




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