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António Fortuna

O Sétimo Sentido

O Sétimo Sentido

2013

O SÉTIMO SENTIDO

(…) Enquanto este aparo vai correndo prisioneiro nestas linhas, os meus olhos livres fixam-se no parêntesis do parágrafo anterior e vêem-lhe a sua verdadeira razão de existir. O que eu pretendia com os dois semi-círculos simétricos era clarificar o "esfarrapado", mas inconscientemente, em vez de o clarificar e o libertar de sentido, construí uma prisão. Pior, uma prisão de arame farpado que tudo rasga na sua integral acepção humana. O corpo e a mente. O corpo e a razão que se pretendiam livres.

É isso que os "artistas" e os guardadores do pôr-do-sol em perpétuo repouso fazem ao entrançarem as suas palavras vazias de sentido humano que flutuam no vácuo das suas mentes. Com elas constroem teias de arame farpado à nossa volta, querendo fazer-nos acreditar na omnipresença do Sol (eles) e que a Terra (nós) não se move. E são muitos os que fazem fé e os seguem para não se cortarem no tal arame farpado e nas suas leis, acomodando-se como amibas.

Nos mil quilómetros de mar onde espetamos o rosto, os Velhos do Restelo, como eu muitas vezes me considero, tentam respirar, sorvendo a brisa da aurora, resistindo e continuando a acreditar em Galileu; que proferiu a célebre frase depois de o obrigarem a negar as suas convicções heliocêntricas: — Contudo, ela move-se.

E a Terra sempre se moveu em torno do Sol. E gira à velocidade de trinta quilómetros por segundo. Velocidade muito inferior à da velocidade da mente humana, quando livre e honesta, só havendo, para ela, a degradação física.

Os guardadores de pôr-do-sol ficarão, sem dúvida, na história destes mil quilómetros de mar espetado no rosto, porque souberam manobrar a âncora dentro da cerca de arame farpado, afogando muitos dos seres superiores – seus "não semelhantes" - que a eles não se vergaram. Estes, sim, com a ajuda do mar renovarão sempre o rosto deste país de Montes sustentados por raízes e banhado por mil quilómetros de Mar.

Respiremos... (…)




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